Capitão Solidão Podcast

Liberdade

David Arroz Season 1 Episode 2

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Neste segundo episódio, lançado com um ligeiro atraso devido à irresponsabilidade do autor, falou-se um pouco de tudo: do início de 2026, do tempo, Serra da Lousã, Bad Religion; 25 de abril, John Steinbeck, Ferdia Lennon e de literatura no geral. O Capitão Solidão deu um ar da sua graça e decidiu intrometer-se de quando em vez e dar azo a pensamentos filosóficos. Será que fez bem? Só mesmo ouvindo...

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SPEAKER_01

Informação prévia. O atraso na publicação deste episódio deve-se exclusivamente à irresponsabilidade do autor. Sejam muito bem-vindos ao segundo episódio de Capitão Solidão Podcast, um programa gravado num velho farol imaginário. Estamos finalmente em maio e posso dizer que este ano começou com uma lentidão, um peso, um rastar de horas. Epá, epá, epá, se não dá, se não dá. Então, chega aqui alguém, começa a ouvir isto e adormece. Oh, lá estás tu, tenha certeza. Isto é um podcast.

SPEAKER_02

E um podcast é para dizeres às pessoas aquilo que sentes, para falares com elas, para elas sentirem que estás vivo, que tens sangue dentro de ti, que tudo mexes, que a vida é boa, sei lá, ou que a vida é má também, pode ser. Não sei.

SPEAKER_01

Tem sido difícil porque criar este episódio ainda por cima, como sendo o episódio que será o exemplo para todos os outros, não é fácil e põe-me nervoso.

SPEAKER_02

Eu sei, eu percebo, mas vamos começar isto de uma maneira. Olha, tenho aqui uma ideia. Primeiro vamos pôr aqui uma trilhazinha, aqui uma trilhazinha sonora. O que é que achas? Olha, olha esta, olha este, olha este.

SPEAKER_01

Espera, espera, espera, espera, Capitão, espera aí um bocadinho. É que também não pode ser uma trilha que faça com que as pessoas se distraiam. O foco tem que estar na conversa. Eu acho que tenho aqui uma ideia. Vê lá o que é que achas desta trilha aqui para. como música de fundo para as nossas conversas. Vê lá.

SPEAKER_02

Então, gostas? Estás a ver como dentro de ti há alguma coisa? Está cheio de maravilhas! E agora continuares. Agora sim, pegas naquilo que querias dizer ao bocado, estavas a falar que começámos em maio, mas que o início do ano não tinha sido um bocadinho atribulado e tal. Pegas nisto, fazes uma amálgama com as palavras todas, mandas cá para fora e tens-me aqui ouvir-te. A mim e todo um auditório. Todo um auditório. Vamos lá. Vamos a isso. Agarra nessas ideias. E é como se tivesse a contar os tentáculos de um povo. Ou isto, ou a imaginares picado por um peixe agulha.

SPEAKER_01

Isso é doloroso.

SPEAKER_02

É só seguir isto. Seguir o teu instinto.

SPEAKER_01

Boa. Olha, enquanto tu tentas afinar isso tudo, vou ali regar as plantas seco, me entendes.

SPEAKER_02

Depois de precisares de mim, chama-me, que eu estou aqui para ti de alma e coração. Força Marojo!

SPEAKER_01

Obrigado, capitão. Bom, vou mesmo seguir a recomendação do capitão porque daquilo que eu tenho visto só há duas coisas que ele não sabe fazer: é sopa e cantar. De resto, o homem até se desenrasca bem. Estava eu a dizer inicialmente de forma mortiça que estamos finalmente em maio. Estamos finalmente em maio! Oh, estamos finalmente em maio! Estamos finalmente em maio! Ai, porquê? Porque o início deste ano foi um arrastar decisões, de respostas, sei lá, parecia que tinha caído em areia movedissa, em águas pesadas de uma praia fluvial, em que, por mais braçadas que desse, não conseguia sair do mesmo sítio. Sentia-me uma pedra, uma pedra que atirada ao mar ia logo diretamente ao fundo. Era assim que eu me sentia. Uma maré de azar. A minha pergunta era esta. Será que fui o único a sentir que não entrei com os dois pés bem acentos in 2026? Mas que raio de frequência foi este? Eu dei por mim a perguntar se estava bem alinhado com o planeta, sabem? É que só vislumbrei o final deste lamaçal já a meio do mês de Abril. É que foram 14 semanas desgastantes, imprevisíveis, com aquelas notícias que todos fomos acompanhando tão inalcançáveis que faziam desta realidade quase ficção. Era inacreditável. E tudo isto sem esquecer este inverno. Mas que inverno foi este? Que chuvas foram estas e que tempestades foram estas e que acontecimentos foram estes de norte a sul e nas ilhas? Que foi isto? É que tirando o meu joelho esquerdo continuo na frequência errada, parece que finalmente, finalmente, encontrei água no deserto. E como já bebi um copinho ou dois, de água, claro, quero aproveitar para vos falar da viagem que fiz em família ainda durante o mês de Abril. Foi uma grande viagem. Fomos à Serra da Lausanne. Vejam lá. Querem ouvir? Vamos a isso. Oh que dia incrível para uma bela caminhada. Serra da Lausanne. Pronto começar? Bem, pelo início, claro. E dizer-vos que não foi eu que peguei na minha família, foi a família que pegou em mim. E decidimos ir então até à Serra da Lausanne. É uma serra com 1205 metros de altitude no ponto mais elevado e que se situa na transição do distrito de Coimbra para o de Leiria. Pois é, eis uma verdadeira aventura dos cinco. Isto porque decidimos levar a nossa filhota de quatro patas a Emy e por esse motivo escolhemos um pet friendly, a quitar rural, um bed and breakfast situado em Miranda do Corvo. A Emi estava nas 7 quintas. Ela podia ir para todo o lado. Quarto, sala de pequeno almoço, restaurante, o que pedir mais? O que pedir mais? Apesar desta patuda ter apenas 10 meses, comporta-se bem melhor do que eu em viagem. E para não dizer que nós também estávamos nas 7 quintas, ou nós estivéssemos nós numa quinta, apesar de ser sábado. Bom, como todos nesta família gostamos de caminhar, à exceção do meu joelho esquerdo, que nem há força dos anti-inflamatórios lá vai. Decidimos ir de encontro ao trilho da cascata de Rio dos Moros em Condeixa. E o que é que vos posso contar desta caminhada? Simples. Beleza natural? Perfeito. Trilhos, lindíssimos. Passadiços? Incríveis. Pequena ponte suspensa? Magnífico. Cascata. Zero. Não havia cascata. Não havia cascata? E recordam-se de como eu comecei este episódio. A dizer-vos que com a quantidade de água que caiu neste inverno. Bom, só que de cascata em questão nem uma gota de água para a amostra. Nem uma poça no curso de água. Por isso, para terem a certeza que vão ver um bocadinho de água, ou que vão ver a cascata em todo o seu esplendor, em toda a sua exuberância, ou como diz o capitão, com toda a sua pujança, talvez entre os meses de novembro e fevereiro. Esta é a minha recomendação. E olhem que eu apanhei algumas pessoas da região a dizer que estavam surpreendidas que nesta altura do ano, com aquilo que choveu, não existisse água. Estranho. Tudo seco. Já nós, completamente alagados em suorte. Começámos esta caminhada junto às ruínas de Conímbriga. É um bom sítio para começar. Visitámos também as aldeias de Cisto de Gondramás, no Conselho de Miranda do Corvo, e Talasnal, localizada na vertente ocidental da Serra do Alusan. Como é que eu sei isto? Porque li! Ambas, a meu ver, são de paragem obrigatória, porque têm uma beleza extraordinária, estão extremamente bem cuidadas, as casas recuperadas, apenas senti falta de como é que eu ia dizer? alguma autenticidade, sabem? Porque faltou gente, faltou calor humano, faltaram aqueles dois dedos de conversa, dois, três, quatro, aquilo de que nós estamos habituados. Percebem o que eu quero dizer? É que para além dos visitantes diários e dos dois restaurantes que estavam abertos ao público, não vi mais ninguém. Parece-me até que as casas na sua maioria servem apenas como alojamentos turísticos. Será? Não sei. No entanto, não posso dizer que não achei fascinante porque em ambos os casos as configurações das aldeias, as ruas encantadoras, as casas de pequena dimensão, eram espetaculares. Eram belas miniaturas feitas de Xisto. E eu sei que me vou repetir, mas eu não posso deixar de falar sobre a incrível beleza que a Serra da Lausanne tem que nos oferecer. E apesar dos incêndios de 2025 e da tempestade Christine que deixaram marcas visíveis e profundas em toda a região, há uma beleza exclusiva na Serra da Lausanne. E a natureza quase que não nos pede nada em troca. E nós podemos retirar tanto dela. E aquilo que nos é pedido é simples. Proteger, cuidar e preservar a natureza. Por isso levem a máquina fotográfica. Aproveitem ao máximo a natureza. Divirtam-se. Deixem-se levar!

SPEAKER_02

Duas bolachas, um chá e a música. Qual será?

SPEAKER_01

E podem ter a certeza: se o mundo acabar, sem música é que eu não vou ficar. Mas o que dizes?

SPEAKER_02

Olha que com esta que eu não estava a contar.

SPEAKER_01

Palavra que nem devia entrar. Ainda por cima já está sentado ao piano.

SPEAKER_02

Não, juro que não ia tocar nada enquanto não parasse de imitar palavras.

SPEAKER_01

Mas estava aqui a meditar numa arpejo. Oh capitão, bem melhor do que meditares num arpejo, seria pôr as mãos nas teclas e tocar. O que me dizes? Ou esse piano continua desafinado?

SPEAKER_02

Desafinado? Eu não te admito que me digas que este piano que me foi oferecido pelo meu bisavô está desafinado. Mas ficas desde já a saber que nem um canto de sereia consegue ter um som tão cristalino como este. Este é um piano. Os outros não passam de uma pequena escama de peixe. E para te provar do que falo, vou fazer um arpédio. Escuta bem.

SPEAKER_01

Bem, não há dúvida que o capitão continua a surpreender-me todos os dias. Todos os dias. Até quando faz chá. Mas já que estamos nesta secção, vamos falar sobre música, porque não? Este espaço foi criado para partilhar convosco aquilo que tenho discutado nos últimos tempos. Mas hoje, como exceção, vou falar-vos do primeiro álbum em formato CD que comprei quando tinha 16, 17 anos. E vocês ainda se lembram do vosso? Ainda se lembram qual é que foi a banda? Ainda se lembram a quem o compraram? Se era novo, se era usado. Ainda se lembram do preço? Provavelmente sim, provavelmente não. Como colecionador incorrigível, já perdi a conta aos discos que tenho. Se calhar não se chama isto um colecionador? No entanto, não perdi a esperança e tensiono ter a minha coleção devidamente catalogada antes de atingir meio século de idade. Bom, se eu puder fazer isto depois de um século, não será nada mau. Bom, sem mais demoras, segue o disco. É nada mais nada menos do que Stranger Than Fiction dos Bad Religion, lançado pela Atlantic Records em 1994. Poderia ter sido outro qualquer. Poderia. Mas por qualquer razão que nem sei bem explicar porquê, foi este o disco que escolhi. Quando coloquei este CD na aparelhagem, foi como se tivesse sido atingido por um relâmpago. Para além deste disco, e dentro do estilo punk rock, Punkin' Drublick dos No FX, Less Talk More Rock dos Propagandi. The Rest is Silence dos Randy, Penny Bridge Pioneers dos Milan Collin, Sound City Burning dos Undeclinable, No Touch Red dos Bodhijar e Calendar dos Star Market foram discos que certamente escutei até o laser ter queimado por completo os meus CDs. Admito ter despertado algo tarde para a música, assim como para a literatura, mas encontrei os amigos certos no ensino secundário que me deram a ouvir dezenas de bandas, para não dizer centenas, de géneros diferentes, e foi a partir daí que nasceu uma paixão tão intensa e voraz que ainda hoje se mantém através deste espírito de colecionador incorrigível. E voltando aos Bad Religion, há bandas que criam fórmulas únicas e os Bad Religion podem ter a certeza que são uma delas. Voltando ao álbum Stranger Than Fiction, o que vos posso dizer é que este listem tem uma sequência de canções inacreditável. Para mim, é estar com uma obra-prima nas mãos e no coração. Cada canção abriu portas que nem sequer sabia que existiam dentro de mim. Canções como Incomplete, Stranger Than Fiction, Tiny Voices, The Handshake, Better of Dead, Infected, Television, Slumber, Inner Logic, What Is This, 21st Century Digital Boy e News from the Front são como um tornado. Muito obrigado Bad Religion! por este disco. Na esplanada de um snack bar, tenho muito muito tempo para pensar. No passado mês de Abril, mês da Liberdade, celebraram-se os 52 anos da Revolução dos Escravos, 25 de Abril de 1974. E apesar de estarmos em maio, considero que é muito importante refletirmos todos os dias sobre esta data, porque em tempos, num estranho tempo, já foi proibido de editar ou vender e até mesmo ler certos livros, ver certos filmes e ouvir determinadas canções. E sem esquecer que todo o ato criativo estava totalmente sufocado pelo regime. Era proibido dar beijos em público, e as mulheres dos ar biquíni, e as casadas proibidas estavam de viajar para o estrangeiro sem autorização do marido. Eram tantas as restrições, proibições, limitações, condicionantes, que, como diz António Costa Santos no seu livro, era proibido, os leitores nasgidos em democracia poderão duvidar da realidade dos vagos que aqui são narrados. Porque esse estranho tempo in que era indocoroso uma senhora trazar a perna ou usar causas, em que não se podia mostrar um umbigo a beira mar, conduzir um táxi ou entregar correntes em bonet, ou ainda guiar em tronco no parece ficção. Quem viveu sempre in libertad terá dificuldade em imaginar um país onde os humos eram escrutinados para defender os bons costumes, e se aborar a cadeia, por se ouvir a BBS, ou ler um determinado livre. Foi um tempo caricado, mas sem graça. Acaba sim a cada um de nós refletir sempre, todos os dias, não esquecer e defender o caminho da liberdade, da igualdade, da esperança, empatia, pois como escreveu José Afonso, em cada esquina um amigo, em cada rosto, igualdade. A liberdade deve ser defendida todos os dias, com amor, respeito e sem medo. E como li na página de Instagram um cravo por dia, uma página recente que recomendo que sigam, liberdade é estar atento, liberdade é património de todos. Porque a liberdade conquista-se, preserva-se e pratica-se 365 dias por ano. Abril de 2026 já passou, mas Abril vive sempre, todos os dias, na voz de quem ama e respeita a liberdade, nas margens deste livro, nasceu uma ponte.

SPEAKER_02

Livros, livros e mais livros.

SPEAKER_01

Eu bem que podia dizer que o mundo pode acabar, mas sem literatura é que eu não vou ficar. Mas é melhor não, porque se ainda apareceu o Capitão Kerte cá outra vez piano, flauta, trompeto, clarinete. Ou pior, cantar. Daí que não vou dizer nada, pode ser que ele não apareça. Está sempre à escuda, sempre à espreita. Lá fora, cá dentro. E vejam bem isto. Há pouco pediu-me para ter aqui um espaço só dele neste podcast. Um espaço onde pudesse libertar pensamentos, pudesse divagar, filosofar, a expor o que vai dentro da sua alma, vejam só. Ainda estou a meditar sobre esse assunto. Para já gostaria de falar sobre um tema que adoro: livros. Literatura. Comecei a minha caminhada pela literatura algo que tarde, mas quando encontrei o caminho decidi não perder tempo. E enquanto alguns dos meus colegas e amigos detestavam com todas as suas forças as viagens da minha terra de Almeida Garrette, ou os Maias do Grande Essa de Queiroz, ou a aparição de Virgílio Ferreira, eu vibrava. Vocês também? É que a partir daqui, mesmo com toda a ingenuidade e inocência de altura, e com resultados no ensino secundário que deixavam muito a desejar, deixei-me levar pela viagem sem quaisquer ideias préconcebidas. Deixei-me deslumbrar com todo o universo disponível. Desde Milano Kundera, a Hermanessa, passando por Truman Capote, José Saramago, Júlio Diniz, Orwell, Exuperry, Hemingway, Aruki Murakami, Kafka, Patrick Zuskind, Gabriel Garcia Marques, isto apenas para vos situar e dar alguns exemplos. É claro que também li o Diário de um Adolescente com a Maria da Saúde e os livros de uma aventura de Ian Livingstone e de Steve Jackson, onde o leitor é o herói. Li muito e reti pouco nessa altura da minha vida. Aliás, como vos disse, a memória é mesmo de peixe. Uma vez em conversa com a minha psicóloga, diz-se o quanto lamentável o facto de não conseguir reter histórias que li a por muito tempo. É que elas desaparecem como folhas de papel no meio de uma tempestade. Mas ela disse-me uma coisa muito acertada e essa sim vai ser difícil de esquecer. Disse-me o que verdadeiramente importa é a sensação que o livro que estamos a ler nos dá. E ela tem razão. Apesar de ter a certeza de que algo fica retido e arrumado nas gavetas da minha curta memória, eu comecei a dar valor ao prazer da leitura por tudo aquilo que ela me dá e que jamais cherei capaz de lhe devolver. É que a literatura consegue-nos apontar por nós de um caminho, por vezes tão comoventes, que de outro modo nos passavam completamente ao lado. Por isso digo, estejam onde estiverem no universo da literatura, se estão felizes, continuem a navegar sem medo e entregar-se com toda a alma e coração ao prazer da leitura. É claro que eu tenho as minhas preferências. Há terrenos onde eu me sinto solto e leve e há outros onde tudo é mais denso, tudo é difícil. Mas para mim até estes caminhos são necessários ao meu aperfeiçoamento. E queiram vir mais uma confidência? Pois aqui vai. Eu tenho um objetivo traçado no que há a leitura diz respeito. Vão existir desvios, claro que sim, e ainda bem. Mas a resposta nasceu de um conjunto de perguntas que faço há muito tempo. E que são estas. Com 45 anos, quantos livros ainda me cabem ler até o final da minha vida? Terei tempo? Terei saúde? Terei visão? Discernimento? Vontade? E tendo por base a resposta que dei a todas estas perguntas, decidi mergulhar maioritariamente no universo dos clássicos. Porquê? Perguntam vocês. Porque apesar de ter uma memória de peixe, há ensinamentos que ficam. Há questões filosóficas que vejo serem respondidas ou abordadas com muita assertividade nos livros e há um conhecimento. Bastante aprofundado o ser humano, que vai muito para além de contar uma história, percebem? Talvez a história seja mesmo a superfície de todas as ideias e pensamentos destas obras. Mas, como diz um grande amigo meu, o melhor da literatura encontra-se no século XIX. Ele, que é um devorador de clássicos, que navega suavemente por romances densos e diz tão prolongada, faz-me acreditar a cada dia que passa que tem razão. É que eu acho que ele tem mesmo razão. E apesar de neste preciso momento estar a ler um desses tais clássicos, vou falar-vos de quatro livros, sendo que um deles, pelas várias leituras que fiz aos meus filhos, tornou-se numa espécie de livro de conforto. Este e o Príncipezinho de Antoine Saint-Exupéry, mas isso é outra história que ficará para um outro episódio. E sem estar a querer ser pretencioso, deixo aqui as minhas sugestões de quatro livros, sendo que dois destes encontram-se na minha lista dos dez melhores de sempre. Um deles é Heróis Sem Glória, do escritor irlandês Ferdia Lennon, editado em 2024 e chegou a Portugal em 2025 através da editora Clube de Autor, e considero que foi uma aposta verdadeiramente ganha. Para quem é amante de literatura, este não pode faltar nastante. Eu sei que é sempre difícil querer falar de um livro sem falar do enredo, mas esta história passa-se em 412 a.C., século V, e como cenário principal temos uma pedreira em Siracusa, uma cidade costeira na Sicília, isto após as guerras de Peloponeso, onde os atenienses saíram derrotados, tendo sido até um ponto de viragem na guerra. Na Pedreira de Siracusa, tendo como prisioneiros de guerra os Atenienses, a ligação faz através de duas personagens principais deste romance, Gelan e Lamp. Este último é quem narra a história, e que são amigos e tomam uma decisão muito arrojada que vai mudar as suas vidas e as vidas dos prisioneiros para sempre. Comprei-o por recomendação e agora é a minha vez de o recomendar. Uma escrita leve, extremamente cativante, onde não vou conseguir parar de ler. Uma história fascinante que contém nas suas páginas momentos de felicidade, de empatia, tristeza, de humor, brutalidade, desilusão, compaixão e esperança. Não posso ir mais longe. Leiam-por favor. Agora John Steinbeck, o mestre, um dos gigantes da literatura. Steinbeck é um universo à parte e sempre que decide caminhar pela sua escrita, rende-me à sua beleza. Escritor norte-americano, nasceu em Salinas, na Califórnia, em 1902, recebeu o prémio Pulitzer de Ficção em 1940 e o Nobel da Literatura no ano de 1962. Faleceu em 1968. Na minha estante ticada a Steinbeck, posso facilmente chegar às obras A Pérola, a Um Deus Desconhecido, Longval, Ratos e Homens, As Vinhas da Ira e ao livro de que vos quero falar, A Leste do Paraíso. Não tenho por hábito sublinhar livros, mas este ficou bem marcado porque marcou-me de forma inesperada. A Pérola, um livro bem mais curto, já havia oferecido uma viagem inacreditável e. brutal. Mas a Leste do Paraíso, nem sei por onde começar. Os solos férteis de Valsalinas na Califórnia são o cenário deste grande fresco histórico que acompanha os destinos de duas famílias, os Strask e os Hamilton, desde os dias da Guerra Civil Americana ao pós-Primeira Guerra Mundial. A inexplicabilidade do amor e as consequências criminosas da sua ausência estão no centro deste romance, publicado originalmente em 1952, onde John Steinbeck apresenta algumas das suas personagens mais cativantes. Enfrentando um percurso beijado de luta e de sofrimento que atravessa gerações, nas suas histórias houve sequar irremediavelmente a tragédia das palavras bíblicas e assiste-se a uma reincenação da queda de Adão e Eva e da rivalidade destrutiva entre Caim e Abel. Aleste do Paraíso é uma obra de maturidade e de grande fogo, uma história brutal e apaixonante sobre a qual escreveu o próprio autor. O assunto é o mesmo que cada homem tem utilizado como tema: a existência, o equilíbrio, a batalha e a vitória, a eterna guerra entre a sabedoria e ignorância, a luz e a treva, o bem e o mal. Edição Livros do Brasil: Uma chancela da Porto Editora. Este livro é uma autêntica viagem. Aprendi muito com ele. E espero que vocês também. Acredito mesmo que vão ter uma agradável surpresa. John Steinbeck, obrigado. E, para finalizar, não posso deixar de recomendar a aquisição e leitura de dois livros, infante ou juvenis, que são verdadeiras preciosidades no universo de ilustração, ambas do mesmo autor, David Litchfield, e que são O Urso e o Piano, livro que venceu o prémio Water Stones para Melhor Livro Ilustrado, e que foi editado pela primeira vez em 2015, com a edição portuguesa em 2017, a cargo da Book Smile e com tradução de Luísa Costa Gomes, e o livro O Gigante Secreto do Avô, de 2017, o mesmo ano para a edição portuguesa, através da mesma editora e com a mesma tradutora. Li ambas as histórias aos meus filhos e a nossa preferida é, sem dúvida, a de Orso e o Piano. Um mergulho tão belo e enternecedor que já nos fez reler ambas as histórias, muito para lá de uma dezena de vezes. Quem sou eu para recomendar? Um simples amante de livros. Ah! e já agora, de 27 de maio a 14 de junho, realiza-se a 96a edição da Feira de Livre de Lisboa, que é o maior evento literário da cidade. E já sabem, boas leituras e até à minha próxima leitura. Posso ver muito mal ao longe, mas ainda vejo bem ao perto. Quanto mais penso, menos sei, e sei nada mais nada menos do que aquilo que sabia quando nasci. Absolutamente nada.

SPEAKER_02

E às vezes penso, será que o céu da boca tem nuvens?

SPEAKER_01

Será que há alguros neste universo de expansão ilimitada? Existe o mar sem fundo e um céu conteto? Será que toda a nossa vida cabe numa simples lata de anchovas? O será ela tão imensa e pesada que nem um planeta consegue suportar com o peso da nossa ignorância? Teremos nós medo de voar sem asas? De sonhar acordados? Sonho muito enquanto descasco batatas e penso pouco enquanto durmo. Vejo o mar e caminho e nas cidades do por mim a mergulhar no silêncio. Bom por aqui me fico. Até breve, até breve, sereias e marujos.

SPEAKER_02

Então é que se faz isto, é que se desliga isto. Só cargar aqui.

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