Capitão Solidão Podcast
Um Podcast mensal gravado no interior de um velho e enigmático farol, apagado de todas as cartas náuticas e rotas marítimas conhecidas. Isolado numa ilha longínqua, esquecida por todos, este farol serve um único propósito: abrigar o Capitão Solidão dos temporais da sua própria existência. É a partir deste refúgio que se entrega ao mundo, através de um diário de bordo sem páginas por virar. De quando em vez, são disponibilizadas as coordenadas para que uma convidada ou convidado possam aquietar o seu indomável e desajeitado coração de marujo. Um Podcast conduzido por David Arroz. Bem-vindos a bordo!
Capitão Solidão Podcast
Até à Vista!
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Este episódio inclui uma conversa muito diferente do habitual. É, na verdade e sem rodeios, uma espécie de despedida ou um até breve, se assim preferirem...
Vento free su atenção um dia de porcast.
SPEAKER_01Um programa gravado num velho farol imaginário. Vou tentar fazer este episódio mais corrido na base do improviso, embora algo em mim tenha mudado nesse sentido desde 2021, sensivelmente. Antes acho que era mais espontâneo e agora sinto-me um pouco mais bloqueado, preso, numa espécie de névoa constante e sem vontade de ser espontâneo. A prova disso é que tenho vindo a perder alguma fluidez e até consistência na oralidade, o que me deixa algo desiludido, mas vou tentar fazer com que este episódio seja mais corrido. E o episódio de hoje é uma conversa um pouco diferente do habitual. É, na verdade, e sem rodeios, uma espécie de despedida, ou um até breve, se assim preferirem. É que decidi fazer uma pausa no podcast. É uma decisão que me deixa triste, porque quando comecei este projeto achei que me poderia dar aquilo que eu procura, ou seja, um escape da realidade, assim como também manter o meu lado criativo sempre ligado à corrente. Um lugar verdadeiramente meu, genuíno, onde pudesse falar das coisas de que mais gosto, da música, dos livros, de filmes, das ideias e das pessoas que fazem parte da minha vida ou que admiro, porque tenho sempre algo de belo para partilhar com o mundo e de onde podemos aproveitar algo de valioso para as nossas vidas. Um lugar onde pudesse simplesmente criar. E apesar desta minha decisão, que levou mês e meio a ser tomada, continuo a acreditar neste mundo mágico, nesta ilha magnífica na qual habita o Capitão Solidão. E por cá devo continuar, mas em silêncio. Apesar de tudo, continuo com muitas ideias e tenho bastante bem delineado na minha cabeça aquilo que gostaria de fazer com este projeto. Talvez, simplesmente, este não seja o momento certo. Talvez ainda não esteja preparado ou simplesmente já não tenha a capacidade ou coragem de arriscar uma certa espontaneidade, como noutros tempos, em que de forma muito descontraída viajava em direto durante horas em programas da manhã numa estação de rádio ou em programas de autor que eram transmitidos em direto sem qualquer tipo de edição. Erros grosseiros, talvez, diria muitos, mas eu tinha uma carapaça inquebrantável ou simplesmente não transformava esses erros em monstros ou a falha num rótulo permanente. Parece-me, não sei, parece-me nos dias de hoje não há grande espaço para falhar para o aperfeiçoamento à vista ou até para uma certa vulnerabilidade. E, sinceramente falando, considero que o ruído é tanto que sinto apenas estar a contribuir para o fortalecer. E, afinal de contas, quem sou eu para fazer isto? Que ousadia foi esta? Sinto uma necessidade interior de proveniência incerta que me grita incessantemente para pausar, travar a fundo e dedicar-me a uma espécie de retiro de silêncio, de mergulhar na minha bolha, sabem? De me recentrar. Não sei se devo a designar tudo isto com uma redefinição, porque talvez não queira começar de novo. Quero, acima de tudo, voltar a encontrar o foco. Sinto, como já disse muitas vezes, que a minha lente está algo desfocada. Então agora que voltei a usar óculos para ler, deve estar mesmo. E quando a lente está desfocada, talvez não valha a pena continuar a fotografar a realidade como se estivesse tudo bem. Talvez seja mesmo melhor parar, limpar a lente apenas para, depois de eu ter limpo, poder revelar as fotografias que realmente importam. Quero voltar a dedicar tempo às coisas simples andes, como ler, ouvir música, estar com a família, estar com os amigos, and a realidade dos dias tem me obrigado a desviar muito este caminho. Ultimamente tenho me sentido tolhido, sem grande energia, sem força, and sem grande voltar para o lado criativo ou de aprendizagem. Triste, porque não dizê-lo, porque não admitir. Esta neva que me rodeia está a cercar-me de forma demasiado intensa e profunda, e eu acho que não devo trazer este peso para este podcast. Não quero que um espaço criado para trazer conforto, criatividade, humor, boas vibrações, acabe por se tornar um reflexo do meu cansaço. Quando terminou a minha ligação com o projeto Boca Doce, ao qual me dediquei com toda a energia a nível musical, mas também criativo e através da criação de conteúdos para as redes sociais da banda, achei que o podcast poderia ser a chave, a resposta para preencher esse espaço vazio que se foi formando ao longo do tempo. Quis sair por me sentir cansado e agora neste projeto pessoal não me permite continuar porque continuo cansado. Pensei que precisava de alguma coisa para manter a minha mente criativa ativa e hoje percebo que talvez não precise de preencher todos os espaços, de aparecer, de estar no foco, de ter uma opinião ou justificação para toda esta realidade que de certa maneira me devora e até assusta. Às vezes procuramos precisamente o ruído para não ouvirmos aquilo que se passa dentro da nossa cabeça, para não nos confrontarmos com algumas das coisas que nos paralisam, para não termos de responder a determinadas perguntas que surgem do nada ou partir de um qualquer gatilho. Talvez tenha feito tudo isto durante demasiado tempo. Eu não quero mudar quem sou, quero apenas melhorar quem sou, ser ainda mais útil e positivo. E julgo tenha chegado o momento de deixar de fugir deste confronto. Ainda ontem, numa conversa com um amigo, ele dizia-me uma coisa que ficou a ecoar na minha cabeça durante algum tempo. Disse-me que ultimamente não se sentia a encaixar na realidade. Será a velhice? Será a velocidade alucinante destes tempos que faz com que até a nossa geração já não tenha a pedalada necessária para acompanhar a realidade de uma forma confortável? Será isto o motivo do meu cansaço? Também não sei responder. Só sei que sinto que tenho vindo a perder muita da espontaneidade que sempre me caracterizou. Sempre fui um livro aberto com os meus amigos ando conhecendo ao longo da minha vida. Durante muito tempo existiu a necessidade de querer provocar pela positiva, de abanar as estruturas com toda a segurança, querendo apenas um desfecho de boa disposição. Neste momento encontro-me bem mais retraído, mais fechado, talvez até mais isolado. Preciso perceber porquê. Isto não quer dizer que seja algo negativo. Quero apenas transformar este momento numa oportunidade and não tenho necessariamente de encontrar uma resposta extraordinária. Talvez isto seja simplesmente uma fase da vida. Afinal, já levo 45 anos desta realidade. Posso dizer-vos que comecei com algumas sessões pessoais de meditação e isso tem me trazido algum conforto, mas ainda sinto que existe muito para explorar. Há coisas que quero estudar, coisas que quero aprofundar e, sobretudo, existe um silêncio ao qual ainda não me entreguei verdadeiramente. E talvez seja mesmo isso que preciso de fazer agora. E quem sabe se mais tarde, depois desta caminhada em silêncio, não regressarei com mais força para vos contar um pouco sobre ela, sobre aquilo que encontrei pelo caminho, nos livros, na música, na cultura, nas pessoas, na minha própria realidade. Talvez um dia vos conte onde fui buscar inspiração e aquilo que aprendi durante esta viagem. Ou talvez todas estas experiências fiquem apenas comigo. Ainda não sei. E está tudo bem em não saber. Há no entanto uma coisa que sei: a ideia deste podcast não morre aqui. Isto não é o fim. Foram apenas 6 episódios, e alguém poderá até achar estranho, ou mesmo ridículo, fazer uma pausa tão cedo, tão repentina, sobretudo depois do investimento que este projeto até implicou a vários níveis. Mas preciso mesmo de direcionar a minha energia para outro lugar. Para mim, os episódios continuarão disponíveis e ficam, sobretudo, as bonitas conversas que tive com o Ricardo Barriga e com o Ângelo Delgado. Tinha também já mais quatro ou cinco convidados pensados para virem até ao farol e algumas dessas conversas estavam praticamente delineadas. Mas essas pessoas não desapareceram. Essas conversas também não. Essas conversas que estão dentro da minha cabeça, elas estão simplesmente em pausa. Porque este podcast é também um processo bastante solitário. Faço praticamente tudo. Penso o episódio, preparo, gravo, edito e crio toda uma imagem para divulgá-lo nas redes sociais. E até aqui tudo bem, tudo normal. É o espírito deste projeto. É uma espécie de do it yourself. Foi assim que nasceu, foi assim que funcionou e provavelmente será sempre assim. Mas há momentos em que fazer todas as etapas começa a pesar. E quando aquilo que fazemos por prazer começa a transformar-se numa obrigação, talvez seja importante saber parar antes de perdermos precisamente aquilo que nos levou a começar. Há no entanto um espaço criativo que quero continuar a manter. Vou continuar a partilhar os discos que vou comprando e escutando através do meu pequeno espaço, uma página do Instagram, que continua a dar-me muito contentamento. Talvez venha a ser o único L de ligação com a realidade das redes nos próximos tempos. A única lâmpada acesa na realidade virtual. Enquanto colecionador e apaixonado pelo formato físico, gosto de ter as edições comigo. Gosto de fotografar os discos e de criar uma espécie de moldura à sua volta, através de pequenos objetos que tenho em casa e que, pelo menos, na minha cabeça, ajudam a completar a história daquele álbum. Já vou em perto de 510 discos partilhados e este é o propósito da página O Meu Pequeno Espaço. Naturalmente que se torna cada vez mais difícil encontrar objetos e enquadramentos diferentes. Algumas coisas acabam por se repetir no fundo, pois não tenho peças artísticas infinitas espalhadas pela casa. Quem me dera assim fosse. Contei a este podcast, nest episódios, tentei sempre dar o meu melhor. Espero que tenham sentido alguma ligação a este pequeno mundo. Espero que tenham percebido aquilo que pretendia e continuo a pretender com a Ilha do Capitão Solidão. Acima de tudo, espero que em algum momento tenham sorrido, que tenham ficado um pouco mais feliz e que tenham passado um bom momento. Quanto ao capitão, bom o capitão continuará por aqui. Ficará no farol, talvez um pouco mais calado durante pelo menos algum tempo. Mas conhecendo como conheço, não me admirava absolutamente nada que de vez em quando decidisse pegar no microfone sem avisar viva alma e aparecesse por aqui a divulgar as suas filosofias baratas, sempre acompanhado daquele sentido de humor muito próprio e tão seco como um bacalhau ao sol. Ele próprio consegue surpreender-me. Por isso, quem sabe. Talvez um dia abram o podcast e encontrem um episódio que não estava previsto. Só o capitão, com uma quantidade considerável de disparados. E, lamento, não terei rigorosamente nada a ver com o assunto. Há acontecer, oçam-se por vossa conta e risco. Para este episódio, já lhe enviei uma mensagem por rádio, pois saiu na sua embarcação há mais de um mês, e pedi-lhe agora que, quando pudesse, gravasse uma pequena mensagem de despedida, para se despedir também de todos vocês. Se ele responder a tempo, a mensagem entrará diretamente no ar. Não faço ideia do que ele vai dizer. Da minha parte fica um abraço ou um beijinho muito grande para todos vocês que me acompanharam nesta pequena, grande aventura. E fica também um compromisso. Um dia voltarei a esta antena, quando me sentir melhor, quando voltar a encontrar o foco e quando sentir que tenho novamente energia para abraçar este projeto da forma como ele merece. E aí sim regressarei. Porque a Ilha do Capitão Solidão não desaparece só porque ficamos algum tempo em silêncio. O capitão continuará por aqui. O farol continuará aceso. Obrigado por terem estado desse lado. E até breve. Até breve.
SPEAKER_02Alô! Conseguem ouvir-me! Conseguem ouvir-me desse lado? Escuto! Consegue ouvir! Bom, eu vou tentar! Se não conseguirem, olhem! A culpa é do rádio! Recebi uma mensagem algo inquietante! Mas conhecendo o David, como conheço, o que é que me faz dizer? Sei a necessidade, compreendo. Eu próprio também me desliguei do fado das cantigas de amor e mal dizer e procurei encontrar até encontrar esta ilha e perceber que ela me dá o ruído suficiente para perceber que vivo num silêncio agradável e eu só vos posso também agradecer por terem participado nas nossas vidas, nem que fosse por este bocadinho com seis episódios, e quem sabe, quem sabe, se não encontro eu um monstro marinho com tentáculos inimagináveis, e aí sim terei de voltar à Terra Mas enquanto isso cá estou vivo feliz a sobreviver com elegância e se me aparares dizer algo, é que eu estou a viver a minha própria Odisseia. Já leram Odisseia? Já viram um filme a Odisseia? Recomendo, façam-no enquanto é tempo. Esta é a minha Odisseia, e a também a Odisseia do David Arroz. Não sei quanto tempo durará esta pilha deste rádio para continuar a transmissão. E como tal, despeço-me dizendo apenas o seguinte: sejam felizes, respeitem sempre o próximo. Aqui, Capitão Franklin Solidão, no mergulho de profundidade, com um livro na mão e uma canção no coração. Até breve, até breve, sereias e marujos.
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